Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TV Tragédia

 

Zé Caparica

 

Título inspirado em crônica de Fátima Irene

A TV brasileira é uma cópia mal feita das televisões dos grandes centros culturais. Quando se liga uma TV em qualquer grande centro do mundo o que se consegue são programações culturais de televisões estatais, tipo TV Cultura ou ainda mais doce e serena. Se tiver mais de 2 canais é muito. Mesmo assim tem que ter antena e outras coisas que para nós são banalidades mas para eles não são. Mas basta pegar o telefone e ligar para uma operadora de TV a cabo que em poucas horas estará instalada em sua televisão cerca de 181 canais. E, meu, com controle remoto e tudo. Dá para ver de tudo! Tudo mesmo. TUDO!!! (Acho que fui claro).

Quando Assis Chateaubrian inaugurou a TV Tupi, a primeira do Brasil, teve que instalar aparelhos por toda a cidade. De que valia uma programação, qualquer que fosse, se não tinha ninguém para assistir? Então ficava aquele amontoado de gente, que nem em loja de eletrodomésticos em dia de jogo da seleção. Ninguém compra nada mas presta uma atenção de coruja. Aí, como TV fascina mesmo, aos poucos foram comprando seus televisores, instalando antenas e assistindo de casa.

Quem paga a conta? Uma TV é uma empresa de entretenimento como outra qualquer e tem despesas do porteiro ao seu artista mais disputado. Os números não são precisos, mas não são loucos. Hebe ganha 1,5 milhão de reais por mês. Faustão também. Gugu também. Adriane Galisteu leva 1 milhão para aquele programinha. Ratinho ganha 1 milhão por mês para ficar fora do ar. Carlos Nascimento saiu da Band e foi para o SBT por 400 mil reais. Quiseram rebater e o Silvio Santos ampliou para 800 mil. Diamantes preciosos como Lima Duarte, Tarcísio Meira, Glória menezes, José Wilker, entre outras jóias da coroa, ganham quanto for necessário mas não saírem da Globo. Para cada novela uma cidade cenográfica.

Já imaginaram manter um Projac? Conta? Conta de luz? A nossa já consideramos impagáveis. Alguém tem idéia de quanto a TV Globo, só no Rio, com o Projac e seus satélites, paga de conta de luz por mês se cada holofote daqueles consome 2.000 watts de energia? E são centenas em cada estúdio! Isso é da casa dos milhões de reais. Muitos milhões por sinal. Quantos funcionários de qualidade existem entre o porteiro e os astros? Desde a mulher do cafezinho até as roupeiras, contra-regras, câmeras, pessoal da técnica e tudo o mais?

Jornalismo é outra coisa que custa uma fortuna. Carros na rua, repórteres caros, espalhados pelo mundo, todos ligados por equipamentos caríssimos que os interligam ao vivo. O pau quebra no Tibet, nem tibetano e nem chinês assiste, mas às 20h15, em ponto, as imagens estão todas editadas no Jornal Nacional. Ora, meu povo. Isso custa um absurdo de dinheiro. Mas é muito dinheiro mesmo. Coisa que não dá para pensar assim rapidamente.

Então veja. Hoje, ou nos últimos 10 anos, temos TV a cabo no Brasil, mas todos querem ver a Globo. Porque a Globo quis ser a melhor, e luta por isso, se esmera, paga bem, vai buscar autores, atores, diretores, iluminadores, designers, modistas, tudo o que há de melhor. Vai buscar onde tiver. Agora a Rede Record resolveu crescer e como o dinheiro é dos fiéis da IURD, o Macedão gasta quanto quer e tira alguns profissionais da Globo. Mas mesmo assim não chega lá. Que importa se novela é um lixo cultural? Cigarro também é. Álcool é muito pior. Mcdonald’s é um esculacho.

Mas o povo gosta, quer ver, é a diversão, a distração, a hora de desligar da realidade e entrar na fantasia da trama que se arrasta por meses a fio. Era pior. Antes uma novela durava 2 anos. E porque gostam tanto de novela? Porque as novelas brasileiras são bem feitas, bem escritas, divertidas, cheio de externas, não há economia porca, a história emociona e todo mundo quer saber quem matou a Odete Roithman.

Quem paga todas as despesas de todos os canais de televisão são os anunciantes. O intervalo comercial, que o Raul Gil eternizou de “vamos faturar”, é a fonte da riqueza que estufa os cofres das TVs para que elas possam oferecer programas a seus telespectadores. Mas só dá para assistir um canal por vez. Uma TV tem mais audiência que a outra e isso se dá por decisão popular. Ninguém interfere nisso. A Globo é líder porque é a melhor e não porque começa com a letra “G”. Acontece uma desgraça lá na Geórgia que invade a Ossétia do Sul, e no dia seguinte tem um repórter da Globo, com o microfone personalizado, mais o cinegrafista que está filmando mas ninguém nota, etc. Avião, hotel, aluguel de carros, guias, proteção, tudo, e no fim, quando muito, sai uma materiazinha de 1 minuto.

Então por que as TVs fazem das desgraças da vida uma tragédia sem fim? Porque ficamos ali olhando o que vai acontecer. Simples assim. Agora vai! Tão negociando! Vixi, cortaram a luz! Se ligar a luz ele solta a Nayara! Uia! Liberou a Nayara! Ô, loco, meu! Óia a Nayara de volta! Ihhh... Fudeu... Ela entrou de novo no apartamento. E agora? Olha lá um vizinho! Vamos entrevistar! “Como era a Eloá?”. Corta! A polícia está negociando. A Globo pagou um por fora e agora pode acompanhar as negociações de perto. Depois o tenente fica famoso porque deu entrevista pra Globo. Uia! Apareceram na janela! Porque a polícia não atira e mata o cara e salva a Eloá? Vai que erra o tiro... Uia! A bomba, explodiu! Vixe! Agora vai! Ihhh... Emperrou tudo. Óia lá, óia lá, tiros!!! O cara atirou!!! Não, foi a polícia! Vamos linchar o fiadaputa? Oh! Ele deu um tiro na cabeça dela??? Já morreu? Nãããão??? Ah... A Globo já está lá no hospital? Então vamos para o intervalo comercial e fazer um xixi que temos que ver a desgraça adentrar o hospital, e depois a entrevista com o médico, e depois, e depois, e depois...

Nenhum anunciante enfia dinheiro onde não há audiência. Veja como é simples entender. Como não sei os números corretos vamos fazer uma simulação. Um anúncio de 30 segundos na Globo custa, imaginemos, R$ 100.000,00. Se o anúncio for visto por digamos 1.000.000 pessoas a empresa gastou R$ 0,10 só para cada pessoa ver o seu produto. Nada garante que vai comprar. Então tem que anunciar várias vezes. Todo esse custo, é óbvio, vai parar no preço da mercadoria e quem compra paga. O ingrediente mais caro da Coca-Cola e produtos similares é a propaganda. Acha que tem lógica pagar quase R$ 12,00 por um BigMac murcho, com uma Coca-Cola lotada de gelo (gelo é água) e meia batata frita? É um insulto. Mas a propaganda é linda, cara, exibida nos melhores e mais caros canais para atingir o máximo de pessoas.

Há uma VERDADE que precisa ser GRITADA freqüentemente: Você é seu dono, você é o dono da TV, você é que manipula o controle remoto, você sabe até os horários que a Nayara saiu, voltou, que hora explodiram a porta e até a que horas a Eloá foi declarada morta. Sabe por todos os presídios que o Lindemberg passou. Por que fica reclamando que a TV ficou o dia inteiro mostrando desgraça? Ora, oh povo, ficou porque o povo quer ver, gosta disso, gosta de acompanhar, sentir o clima, o ambiente, a tensão, quer ver os reféns serem libertados. É tudo ao vivo, tudo linkado. Querem um exemplo? A Globo News é TV paga e só falou disso. O repórter Ricardo Lessa, que é repórter de primeira linha, foi obrigado a fazer plantão de mais de 24 horas no local. O povo quer ver, a TV mostra e, se juntar os dois o anunciante manda rodar sua propaganda.

Não é a TV que gosta de uma tragédia. Quem gosta de ver tragédia e desgraças é o povo brasileiro. Função de TV é mostrar. Então vai mostrar o que o povo quer ver enquanto outro corre atrás de um anunciante para pagar as contas. Simples assim. Se não tiver nem interessados e nem anunciantes, pode ter certeza que as TVs querem mais que a Eloá e a cambada dela morram lá nos predinhos de pobre que eles moram, como morrem centenas todos os dias e a TV não cobre.

Que Eloá descanse com os anjos, que a Nayara case e seja feliz, que o Lindemberg (Lindo para os íntimos) apodreça na prisão, e até a próxima tragédia. A gente se encontra na tela da Globo. Depois conferimos nas outras.

Plim! Plim!

25.10.2008

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