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Profissão 546
Zé Caparica
Minha amiga Fátima
Irene, poeta e escritora de qualidade, escreveu uma crônica essa semana
contando as agruras porque passam as pessoas que escolhem como profissão
aquilo que o senso comum não considera profissão. Foi funcionária pública,
bancária por longos anos, até que um dia aposenta mesmo. Mas ela sempre
escreveu. Tem vários livros publicados. E agora só escreve. Digamos que ela
fosse, antes, bancária e escritora, ou até, já que podem não compreender
direito, funcionária pública e escritora. É que para ser funcionário
público tem concurso e mérito e para ser só bancário nem tanto. Hoje,
aposentada e feliz, deleita-se no canto dos pássaros, dialoga com a aurora,
banha-se no orvalho, flana na brisa, e depois transforma toda essa emoção
em poesias, poemas, preces, textos de ânimo aos desanimados, prosas
espirituais e crônicas muito boas e divertidas.
Mas quando vai
preencher o campo “profissão” em algum documento, acaba colocando
“aposentada”, porque acham, nem sei de onde ou por quê, que ser escritor
não é profissão. É profissão, sim. Ninguém valoriza e acha até que é função
de desocupado, mas se vocês estão lendo é porque estão gostando, e se estão
gostando foi porque alguém escreveu de forma que ficasse agradável. Isso dá
trabalho. Se dá trabalho, precisa de talento e ocupa muitas horas. Se ocupa
horas, temos responsabilidades, cumprimos prazos e vivemos disso, se não é
profissão é o quê?
Já passei por isso.
Uma mocinha do estilo gerúndico me disse certa vez: “Pode estar sentando
aí, meu senhor, que eu já vou estar preenchendo o seu cadastro”. Quase
vomitei. Lá vai...
- Nome?
- Zé!
- Endereço?
- Lá!
- Telefone?
- Aquele!
- CEP?
- 12345-678!
- Profissão?
- Escritor!
- Como?
- Escritor!
- O senhor não
entendeu. A sua profissão mesmo?
- Escritor!
- Mas...
- Escritor, minha
filha, aquele que escreve para os outros lerem!
– Desculpe, senhor, mas
é que eu preciso estar colocando aqui uma profissão. O senhor vive do quê?
- De ‘estar
escrevendo’!
- Um momento,
senhor, que eu vou estar consultando a minha tabela aqui... deixa ver...
a... b... c... d... e.. es... esc... não, senhor essa profissão não tem.
- Como não tem? Tem
cantor?
- Vou estar
verificando... a... b... c... ca... can... não, também não tem.
- E o Roberto Carlos
é o quê?
- Cantor...
- Então, e eu sou
escritor!
- Ahn, é, sei... não
sei... vou colocar ‘outros’!
- Não vai não! - disse eu quase aos berros - Tu vai
botar aí que eu sou um escritor. E-S-C-R-I-T-O-R!!!”.
Não se trata de
vaidade besta. O universo de leitores é pequeno no Brasil, poderia
decuplicar, bem como aumentaria bastante o número de escritores. Todo
leitor assíduo é um escritor em potencial porque, não sei se vocês já
notaram, a gente aprende qualquer profissão fazendo de forma amadora aquilo
que copiamos dos profissionais e, de tanto praticar, vamos melhorando e se
for a nossa praia escolhemos como profissão. Isso vai de desossador de
bovinos e assistente de lixeiro. As coisas não brotam e nem aparecem do
nada. Quando se abre a torneira o que se quer é água limpa. De onde veio a
água, a captação, tratamento, tubulações, caixas d’agua, distribuição, etc,
não nos passa pela cabeça. Queremos só beber água ou tomar um banho. Mas
bem que notamos quando a água que sai sempre límpida um dia aparece suja.
Aí xingamos o fornecedor sem nem saber o que foi que ocorreu.
Sabe que fico
imaginando que se acontecer uma desgraça e cair um avião nas minhas mãos e
eu não conseguir mais editar o site, é bem capaz que alguns comentem: “Esse
Caparica não tem persistência mesmo. Já nem escreve mais...”.
Fui buscar nos
registros do governo. Escritor é uma profissão, sim. Tem até o “Dia do
Escritor”. Todo dia 25 de julho. Decretado por lei. Coisa chique. Mas é
assim. Tem só duas tabelas que encontrei na internet. A que traz uma
relação de 912 profissões é do Ministério da Justiça, Departamento de
Polícia Federal. Que coisa mais estranha. Essa tabela deve ser ainda do
tempo da ditadura, onde se a gente fosse compositor, escritor ou o que
fosse do ramo era suspeito e dependendo do nome era até preso para
averiguações. Mas não é o caso. É para emissões de passaportes e pasmem,
tem até a profissão de desempregado, que é a pessoa que se ocupa em
procurar emprego todos os dias.
Mas tem também
pugilista, prostituta (código 800 para os curiosos, mas não é 0800, não),
babá, biscateiro, presidente da república, governador, senador, deputado
federal, estadual, prefeito, vereador e outras profissões que nunca lhe
passaram pela cabeça. Escritor é uma profissão cujo código é 546
(quinhentos e quarenta e seis). No jogo do bicho é do grupo 12, “elefante”,
e quem jogar no escritor e der na cabeça (1º prêmio) ganha R$ 250,00 para
cada real apostado. Nem é um mau negócio.
Já a segunda tabela
eu fiz de tudo para conseguir encontrá-la no site do Ministério da Fazenda,
Receita Federal, que quer saber tudo, e deveria ter até mais profissões que
a Polícia Federal, mas não é o caso. Nem consegui a tabela por lá. Mas o
site UOL informou em seus serviços para quem declara imposto de renda, que
a lista encurtou. Agora escritor, crítico literário e redator vai tudo para
o mesmo saco.
Catço... desde
quando crítico literário escreve? Ele lê muito, conhece a arte mas a tarefa
é outra. É avaliar antes o que leu para direcionar a leitura dos que nele
crêem. Um redator conta uma história apurada, levanta os fatos e a
descreve. Já o escritor, me perdoem a absoluta falta de modéstia, é um
artista. Não é um técnico como os anteriores. O escritor faz nascer uma
obra, um texto, uma estória, que pode até virar um filme, virar moda,
revolucionar o mercado de bugigangas. É só pensar em Harry Potter que o que
eu digo grita aos olhos.
Há uma verdade que
precisa ser dita. Os senhores consumidores de arte em geral precisam
entender que se há o que ler é porque alguém escreveu. Se há o que assistir
é porque alguém filmou, produziu. Se há o que ouvir é porque, antes do
cantor poder ir ao estúdio, alguém fez a música (sem contar os sempre
anônimos músicos, técnicos, engenheiros de som, e muitos outros). Alguém
escreveu a letra, outro alguém colocou uma melodia. Há casos que o cantor é
também o compositor, escreve e musica suas obras. Parabéns pelo talento.
Mas a maioria dos deliciosos sucessos de Roberto Carlos, só para citar um
cantor que dispense apresentações, não foram compostas por ele. “Detalhes”
foi,
junto com Erasmo
Carlos, mas “Outra Vez”, aquela música que o próprio ‘rei’ diz que é “daquelas
que grudam na gente”, é de Isolda, uma das mais brilhantes compositoras do
Brasil e ninguém sabe nem quem é e nem seu rosto. Pelo menos pode ir à
feira do bairro em paz.
Quero estender essa
crônica aos injustiçados escultores, desenhistas, artistas plásticos,
cordelistas, atores em geral, bailarinos, palhaços, malabaristas,
paisagistas, às prostitutas já citadas, e outras profissões tão dignas, ou
até mais dignas, que tantas outras que enchem os olhos dos ignaros. Pode
puxar a lista do Ministério da Justiça, Departamento de Polícia Federal,
que terá lá um código oficial para a sua profissão. Mas 546 não, negão, que
esse é só para escritores.
Numerinho bonitinho,
né? 546. Gostei.
03.11.2008
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Copyright © 2008, José Caparica Neto
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