Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preconceito

 

Zé Caparica

 

Assim, encurtando, preconceito é um pré-conceito. Algo que deduzimos por vontade própria, ou total falta de vontade, concebemos por antecipação, do tipo a mesma pessoa acusa, prende, processa, julga, condena e faz cumprir a pena. E em virtude disso passa a valer a regra surda de que preto fede, japonês tem pinto pequeno, chinês é ladrão, paraguiaio é falso, um deficiente físico, no particular, é chamado de aleijado e inválido, somos todos a favor da luta contra a homofobia, mas lá no fundo a gente queria mesmo era homem beijando mulher. As gordas não são obesas nada, são gordas mesmo, pudim de banha, aquelas carecas brilhantes, horríveis, aeroporto de mosquitos. São os testas-altas. Português é burro, loira é estúpida, negão tem pinto grande, e por aí vai. Bons somos nós. O resto é sub. Quase sub-gente. São “os outros”.

O preconceito é uma afronta à democracia, e a democracia, apesar de muito ruim, é usada quase no mundo inteiro porque não inventaram nada melhor. Os soviéticos tentaram, Fidel Castro tentou, há as monarquias, as ditaduras teocráticas, etc, mas a democracia é a forma escolhida pelas mais desenvolvidas e civilizadas nações do mundo. E a democracia é a arte de, não exatamente “engolir sapos”, mas viver em paz com eles, em harmonia, sem rir da perereca manca.

Há uma doença, uma espécie de apendicite, que ocorre apenas na raça negra. É uma mera característica. Certo dia comentei isso com uma pessoa. Quando eu disse que só ocorria em negros, mesmo estando feliz por ser branco, ao invés de dizer um “oh, que pena deles, né?”, soltou um sonoro “Graças a Deus!!!”. Palavras têm significados. A maneira como a pessoa junta as palavras para expressar o que sente é quase impossível de mudar, a menos que esteja escrevendo uma ficção. Na frase dele estava inclusa, claramente, embora não pronunciada, que “pela graça de Deus os pretos se ferram e os brancos, mais com cara de anjo, se dão bem”. Louvado seja.

Certas vezes se usa do preconceito do outro para se fazer de vítima e conseguir o que se quer. Com Benedita da Silva foi assim. Começou sua carreira política trabalhando com o pessoal da favela que ela morava, mas na hora que escolher um slogan para a campanha para vereadora da cidade do rio de Janeiro mandou ver: “Preta, pobre e favelada!”. Oh, dó. No Rio de Janeiro essas coisas fazem efeito. Todo mundo votou na Benedita. Virou um ícone. Mais pra frente, como o PT nunca teve um quadro digamos “bom” para oferecer ao eleitor carioca, mandaram a Benedita ser candidata a senadora. Acharam bonitinho e votaram nela. Aí ela já era conhecida. Foi a primeira mulher negra a assumir pelo voto direto uma vaga do Senado da República.

Ser vereador, deputado estadual ou federal, mesmo senador, é coisa simples. Não se assume nada do que se faz porque fazem nada. Debatem, discutem, votam, e se os efeitos não forem bons a culpa é generalizada. Não sei de onde tiraram que um parlamentar conhecido pode ser um bom administrador de uma cidade, estado ou do país. Aí, por ser a maior estrrela do PT no Rio, fizeram um conchavo e lançaram Anthony Garotinho pra governador e Benedita para vice.

Garotinho se achou bem na foto e foi disputar a presidência da República, e a Benedita assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi o caos. Governou por 6 meses e tentou a reeleição. Um fracasso. Lula, cheio de paz e amor, até arranjou um jeito dela ser ministra. Mais que isso. Ministra de uma área social que lidaria com bilhões de reais e era para administrar Bolsa Família, etc, cuidar e diminuir a pobreza. Quando se vê a Benedita vai rezar na Argentina às custas do erário público. Ela é da Assembléia de Deus. Tem (ou tinha) os votos dos evangélicos também. Obviamente Lula a colocou de volta no Rio e nunca mais ouvimos falar da ex-vereadora, ex-deputada, ex-senadora, ex-governadora e ex-ministra Benedita da Silva, do PT do Rio de Janeiro.

Isso que eu escrevi é preconceito? Faça um teste. Volte o texto, ignore que a Benedita da Silva foi “preta, pobre e favelada”, slogan que ela quis usar, e imagine uma loira, linda e que morasse na Zona Sul do Rio, mas se comportasse da mesma maneira que a famosa senadora. Seria a mesma coisa. O preconceito está na medida que se faz menção direta àquilo que não tem nada a ver diretamente com o assunto: “Tá vendo? Preto quando não caga na entrada, caga na saída”, “Olha a cor da outra”, “Mas como é que entregam o governo de um estado para uma crioulinha analfabeta???”. Isso é preconceito. Benedita da Silva é uma incompetente. Não sabe fazer. Ninguém nasce sabendo, e ela não aprendeu.

O preconceito está diretamente ligado ao fato do outro ser o nosso oposto. Se sou hetero e estou certo, como todos normalmente achamos que estamos, então quem pensa diferente está errado. Se sou morena a loira é burra. Se sou loira a morena é uma frustrada sem sucesso. Se sou evangélico os católicos são horríveis. Se sou católico os evangélicos são todos ladrões de dízimos. Ora, será que não dá para viver em paz por termos algumas coisas em comum? Somos brasileiros, somos gente, somos diferentes, mas se houver disposição de se encaixar como um entre todos, um a mais para ajudar a melhorar, a vida pode ficar ótima.

Olha: Pode parecer que não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas tem. Num metro quadrado cabem 4 pessoas. Um carro ocupa 8 metros quadrados e transporta uma pessoa.

26.10.2008

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