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10%? Nem a pau, Juvenal
Zé Caparica
Ontem o dia estava
um pé-no-saco. Sabe um calor infernal, a cidade sempre com a mesma cara,
resolvi ir a Goiânia no Flamboyant. Para quem não conhece, Goiânia é uma
das mais lindas capitais do Brasil e o Flamboyant também é dos melhores,
maiores e mais completos shoppings centers que já vi. E eu vi um monte na
vida. Nada original o passeio. O melhor programa de Anápolis é ir para
Goiânia. Não sei porque não fecham logo essa cidade e mudamos todos para
lá. Fica aqui pertinho. Meia hora. Liguei para minha amiga motorizada para
saber se ela também estava com vontade de ver Anápolis pelo retrovisor, ela
disse que sim, corri fechar a edição do site, arrumei um (é um mesmo) babá
para cuidar da Chula, ela terminou as pendengas dela e fomos para lá então.
Fomos comer camarão.
Uma vez eu pago, a outra ela paga. Na vez que ela paga eu fico com uma
irresistível vontade de comer camarão. Na vez que eu pago me dá uma vontade
de comer uns espetinhos baratos que são deliciosos. A gente precisa variar
porque vai que pega uma intoxicação de camarão e passa a semana sentado na
privada. É aquela tal “Vivenda do Camarão”. Serviço bom, camarão honesto e,
como sempre, preços distorcidos pra cima porque cliente tem que morrer na
boca do caixa mesmo. Se bem que quem vai a shopping e reclama de preço
comete o mesmo erro de quem vai à igreja e reclama da missa. Só tem missa
na igreja, bem como só tem coisas caras em shoppings. Uma auto-crítica não
mata ninguém.
Mas o papo é outro.
Um papelzinho sem vergonha, gasto e sujo, estava colado na parede com a
informação “Cobramos 10% de taxa de serviço”. Há tantos cardápios e paredes
com essa frase em tantos lugares, mas dessa vez eu fiquei pensando que a
semana passada eu fui ao supermercado, fui excelentemente bem servido, e só
paguei o preço que estava marcado na mercadoria. Não tinha ali, no
“papelzinho”, nada de 10% de serviço porque a moça me cortou alguns gramas
de mortadela e nem porque o açougueiro, de total gentileza e atenção,
cortou os bifes para mim na espessura certinha que eu pedi. Precisa ver a
simpatia e o sorriso das meninas da padaria. Têm uma paciência de Jó
enquanto eu fico pensando se compro só 1 pãozinho ou 2. Se eu gastar um
pouco mais eles entregam aqui em casa (pelo volume de sacolas), rapidinho,
e nem cobram nada. Serviço de primeira, uma atenção realmente aplausível, e
nunca quiseram mais 10% para, digamos, me servir.
Por que haveria eu
de pagar 10% sobre o valor da conta de camarão para a garçonete (muito
simpática e atenciosa) pegar o prato ali e colocar na minha mesa? Já que
você está aí mesmo, pense comigo: Se eu gastar R$ 100 o serviço é R$ 10. Se
gastar R$ 50 é R$5. Se gastar R$ 10 é só R$ 1. Uai, ó xente, dar 10 passos com
um prato mais caro ou mais barato faz diferença? Agora olhe lá na minha
foto e veja se eu tenho cara de idiota, tonto, imbecil, ou qualquer coisa
similar. Estou envelhecendo, mas longe de estar senil. “Amiga, - disse eu à amiga
– nós não vamos pagar esses 10%. Se custa 20 e querem cobrar 22 que
coloquem aqui no cardápio que custa 22, porque se é pra pagar garçonete não
me consta que isso seja problema meu”.
Ser bem servido e
muito bem tratado é o mínimo que eu espero de qualquer lugar que eu vá deixar
o meu dinheiro. As pessoas têm vergonha de enfiar o dedo na cara do
rapazinho do caixa e dizer, “pode
tirar esses 10% daí que eu não sou o seu patrão!”. A amiga prefere
pagar e ser roubada como a maioria, porque tem o tal do “não fica bem”. Ah, sim, sei, tá...
Não fica bem eu mandar tirar o que eu não devo pagar e fica bem ser roubado
na cara dura e ficar quietinho? Vergonha de quê? De exigir o mínimo de
justiça e decência?
Quando eu era moleque
e ia nos restaurantes com meus pais, depois da conta paga, meu pai via lá
quanto sobrou de troco e, se o garçom foi mesmo legal, deixava NA MESA, uns
trocados que o garçom já enfiava no bolso. Era dele. Daí surgiu uma
discussão sobre o quanto seria o justo e etc e alguém sugeriu que 10% do
valor da conta era um tamanho razoável. Então deixávamos, NA MESA, mais ou
menos uns 10% da conta. E ser garçom passou a ser um excelente negócio.
Como raramente há patrão que presta, esses baixaram os salários dos
garçons, alguns até
extinguiram
simbolicamente, e começaram a escrever nos cardápios que cobravam 10% de
“taxa de serviço”. Quando a gente deixava uma gorjeta, era porque o garçom
ia 200 vezes à mesa levar cerveja, refrigerantes e tudo mais, com muita simpatia,
brincava com as crianças, fazia por merecer. Agora querer tabelar isso e
fazer todos pagarem, levando o cliente a achar que eles estão fazendo isso
dentro da lei? Não estão. Eles são fora-da-lei. Ladrões. Mais informações, clique aqui.
A jornalista Adriana
Fonseca, da conceituada revista “Pequenas
Empresas Grandes Negócios” escreveu uma matéria cujo primeiro parágrafo
diz o seguinte: “Fiquei pasma com uma
informação que recebi. Cerca de 70% dos bares e restaurantes de São Paulo
não repassam a taxa de serviço de 10% paga pelos clientes aos funcionários.
O dado é de um levantamento do sindicato dos trabalhadores do setor, que
mostra também que 20% dos empresários repassam o valor sem efetuar os
registros devidos na carteira de trabalho e apenas 10%
efetuam o repasse corretamente”.
Precisa tradução? Então vai. A cambada rouba 10% da gente, não repassa aos
funcionários que são deles e não nossos, e as pessoas ainda têm vergonha de
mandar tirar essa taxa pornográfica. Eu sou boca suja, mas até indecências
têm limites.
Nós temos que respeitar cada centavo que ganhamos com o
nosso trabalho. Foi suado, trabalhado, é nosso. Se você compra uma roupa, é
bem servida, e não tem que pagar taxa de serviço, não há porque pagar em
restaurantes, bares, hotéis ou o que seja. A lei é clara e transparente. A
gorjeta é uma doação VOLUNTÁRIA que o cliente faz no valor que bem
entender, e só se achar que o garçom merece um agrado. E o dinheiro deve ir
para o bolso do garçom que te serviu e não para o caixa do comerciante que,
via de regra, são todos ‘ladrões’ (aspas para
salvar os 10% da matéria da Adriana).
Também não precisa ser como eu que vou lá falar alto
na boca do caixa. Eu sou esculachado mesmo. Mas você pode ser discreto,
chamar o garçom, dizer que você não vai pagar os 10% ilegais, mas que você
acha que ele merece R$ 2 (ou R$ 200) e coloque no bolso dele. Servir bem é
o mínimo que se espera e pagar por isso é uma afronta contra nós mesmos.
Somos nós que, de uma forma indireta, estamos dizendo a nós mesmos: “Veja,
‘eu mesmo’, eles estão me cobrando uma coisa ilegal e eu estou pagando sem
reclamar. Que tipo de consumidor tolo sou eu?”.
Vou usar uma frase desses e-mails que nos mandam
tanto: POR FAVOR, REPASSE AO MAIOR NÚMERO DE PESSOAS INOCENTES QUE ESTÃO
SENDO ROUBADAS. ISSO A GRANDE IMPRENSA NÃO QUER PUBLICAR, BLABLABLÁ, ETC E
TAL.
10%? Nem a pau, Juvenau!
07.11.2008
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© 2008, José Caparica Neto
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