Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulheres que batem - II

 

Zé Caparica

 

Há um tempo escrevi aqui uma crônica sobre mulheres violentas que batem em seus parceiros, mas não são tapinhas femininos nervosinhos. Não. Trata-se de um festival de porradas de dimensões assustadoras. São bruta montes do sexo feminino que, valendo-se normalmente de seu peso e tamanho, esculacham a vida de homens bem mais franzinos e mais fracos. Me lembra aquela piada da gorda que subiu em cima do marido para fazer um sexo diferente e gritou de prazer: “Mexe, benzinho!!!”. Ele, amassado lá em baixo só conseguiu sussurrar: “Só se for os olhinhos, amooor!”.

Quando escrevi aquela crônica me baseei apenas em fatos que vi durante a minha vida, e alguns relatos de delegados e pessoas ligadas ao assunto. Normalmente os homens têm uma vergonha imensa de dizerem que apanharam da mulher e declaram que caíram, brigaram com outro homem, etc. Uma leitora nem acreditou e achou que eu não sabia bem do que falava, crente que só mulheres apanhavam dos maridos. De fato, é notório, a maioria dos espancamentos e violência doméstica é de homens contra mulheres. Mas isso vem de longa data e tem séculos de história. A buraco é mais embaixo. Mas outra leitora, médica perita criminal, confirmou meu relato dizendo de laudos horrendos que fez em homens com o rosto deformado de tantos murros e cacetadas. É a vida ao vivo.

Voltei ao assunto porque certas coisas me fascinam, e quando me fascinam pela inteligência eu gosto de elevar a pessoa. Um homem, cansado de ser esculachado, humilhado, ter seu carro destruído, ser ameaçado de morte e ter sido espancado várias vezes por sua ex-mulher que não queria ser ex-mulher, entrou na Justiça amparado na Lei Maria da Penha, aquela justamente que foi criada para proteger as mulheres dos maridos violentos. O juiz que aceitou e julgou o caso, Dr. Mário Roberto Kono de Oliveira, foi inteligente e hábil. Primeiro porque pela lei não se pode punir um réu por uma lei que não existe. A Lei Maria da Penha é de homens contra mulheres. Uma falha grave, diga-se de passagem. Mas a lei permite analogias. Essas analogias, no entanto, não podem prejudicar o réu, mas pode ser usada com a boa inteção de salvar a vítima. E foi o que fez o juiz. A lutadora de sumô da favela não pode mais chegar a menos de 500 metros da casa, trabalho ou qualquer lugar que a pessoa esteja, sob pena de ser presa por desacato à decisão judicial.

Argumentou o juiz: "Por algumas vezes me deparei com casos em que o homem era vítima do descontrole emocional de uma mulher que não media esforços em praticar todo o tipo de agressão possível (...). Já fui obrigado a decretar a custódia preventiva de mulheres 'à beira de um ataque de nervos', que chegaram a tentar contra a vida de seu ex-consorte, por pura e simplesmente não concordar com o fim de um relacionamento amoroso", ressaltou. Na decisão, o magistrado enfatizou que o homem não deve se envergonhar em buscar socorro junto ao Poder Judiciário para fazer cessar as agressões da qual vem sendo vítima. "É sim, ato de sensatez, já que não procura o homem/vítima se utilizar de atos também violentos como demonstração de força ou de vingança. E compete à Justiça fazer o seu papel de envidar todos os esforços em busca de uma solução de conflitos, em busca de uma paz social".

Gostei da colocação do juiz. Violência trás violência e isso é coisa pra gente baixa, ou mamada de cachaça. Homens de bem resolvem suas pendengas na Justiça. Afinal a Justiça custa um absurdo de dinheiro público, é ineficiente, cheia de juízes corruptos e ladrões, mas ainda é o local que se deve procurar para resolver problemas. Nas primeiras instâncias a coisa é levada com muito mais seriedade e justiça. A coisa desanda quando os poderosos podem subir para recorrer em instâncias superiores. Aí, como ensinou o mestre Gilmar Mendes, a coisa fede.

O fato é que eu tenho certeza que eu tenho leitores que apanham da mulher bem como leitoras que batem nos maridos. E isso é de uma baixeza grotesca. Para ser sincero, apesar de mais homens bateram e espancarem mulheres, eu acho que a coisa se nivela. Depois da primeira porrada não há ali homem ou mulher. Apenas duas bestas querendo destruir a vida do outro. E alegam que é por amor. Por favor não me expliquem como seria se fosse por ódio.

Apartem-se. O nome do verbo é apartar. Não apartar a briga pois pode sobrar um murro para seus lindos olhos. Mas se apartar de gente violenta. Basta um histórico de agressividade para que não sirva mais para conviver conosco. Essa lei Maria da Penha, com todos os benefícios que trouxe à sociedade, não foi justa ao esquecer de incluir os homens para serem julgados pelos mesmos critérios. Na hora de baixar o sarrafo na cabeça do outro, o que menos faz diferença é se a mão que segura o pau é delicada e pintadinha, ou grossa e calejada. Importa que uma paulada na cabeça, um chute na cara, murros e sopapos sem fim não são menos ou mais graves pelo sexo de quem pratica. O coice da égua não dói menos que o coice do cavalo.

Ainda bem que eu só tive mulheres que só me encheram de beijinhos. Tem, ou teve, os arranca-rabos de sempre, mas nunca ultrapassou a barreira de xingar o pai de um de “careca” e a mãe do outro de “cabeluda”. Melhor assim.

31.10.2008

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