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Mercadores da loucura
Zé Caparica
Certas coisas
precisam ser revistas na vida. Quando digo certas coisas estou sendo gentil
porque eu ando numa fase zen de
tratar a todos com uma gentileza só. Olhou torto eu mando endireitar o
olhar ou eu dou porrada. Mas hoje eu vou comentar daquelas experiências que
eu tive em dois países diferentes e mostrar que há diferenças que poderiam
ser resolvidas com uma simples assinatura mas não são. E por que não são?
Ah, meu, é o que eu vou tentar descobrir enquanto vou aqui escrevendo. Vai
lendo aí.
Quando as duas
ninfetas do Lindemberg estavam lá seqüestradas, e ficava aquele invade, não
invade, negocia, dá mais uma chance, etc, o Pronto Socorro de Santo André
(que tem um nome todo pomposo mas todo mundo chama só de pronto socorro
mesmo) estava se preparando para dar o melhor e mais sofisticado tratamento
clínico a quem de lá saísse. Todo o corpo clínico foi chamado, psiquiatras,
psicólogos, cirurgiões plásticos, ortopedistas, cirurgiões em geral, acho
que tinha até dermatologista e acupunturista. E, obviamente, uma sala
enorme para a Rede Globo instalar sua parafernália eletrônica para
transmitir a tragédia ao vivo para todo o Brasil, sem cortes. Foi um saco.
Mortos não podem se
defender então não falarei de Eloá. O que tinha a dizer está na crônica
“Lindemberg” que foi escrita enquanto o seqüestro ainda estava em andamento
e ela estava viva. O Lindemberg é incapaz, será jogado em algum buraco para
apodrecer e a lindinha da Nayara, lindinha mesmo, vai virar modelo e, se
bobear, logo estará fazendo uma pontinha na novela das 6 ou participando do
BBB18. Se o Pedro Bial não aposentar antes. E se a gente tiver saco de ver.
Mas se você aí, que
mora em Santo André, chegar lá com qualquer coisa, terá todos os médicos te
esperando para ver o que é que você precisa? Ou você vai entrar na fila,
ficar esperando para ser atendido com todo o festivo mau humor dos médicos
de plantão que, no mais das vezes, se formaram no ano passado? Se está
achando que poderá conseguir algo melhor é bom arranjar um seqüestrador,
chamar a Globo para armar o circo e aí sim, se tiver sorte de não levar um
balaço, vai ser recepcionado lá com todos os médicos do PSSA. Vai ter até
boletim médico de hora em hora. Se o repórter subornar a vigilância é capaz
até de dar entrevista ao vivo no programão da Sônia Abrão. Chique, né?
Em pronto socorro a
rotina é outra. Essas festividades, que só servem para quebrar a rotina, dá
até vontade de sair do interior da Paraíba e se internar com dor de barriga
do PSSA. Mas a realidade é uma ambulância atrás da outras despejando os
estrupiados em acidentes e outras doenças, e o sistema é bruto. Enquanto
não chegar a sua vez tu vai sofrer na fila mesmo.
Mas o tema, apesar
de tratar da mesma coisa, é em outro lugar. A coisa está com os
psiquiatras. O meu que me desculpe se a carapuça servir, mas eu me sinto na
obrigação de discutir esse assunto. Anápolis tem mais ou menos 350.000
habitantes. E a doença mental, como eu expliquei ontem, é um horror, uma
coisa muito séria mesmo. As opções aqui de convênio são o SUS, o Ipasgo e a
Unimed. No SUS, se é que há psiquiatra, me disseram que não, você marca
hoje que em breve, lá pra abril de 2009, você será atendido com toda a
atenção em limitados 15 minutos. Não dá nem pra explicar o que faz sofrer.
O doutor não tem
tempo para essas frescuras. Te empurra um calmante e te manda embora. E
ainda consegue dormir o fiadaputa.
O Ipasgo não paga os médicos, e então os médicos, de todas as
especialidades pararam de atender. Mas, ainda que pagasse, não há um único
psiquiatra cadastrado no Ipasgo na cidade de Anápolis. Sobrou a Unimed. E a
Unimed tem 1 (um) psiquiatra cadastrado. O meu. E só atende de segunda e
quinta.
Ah, mas tem o
Hospital Psiquiátrico! Sim, tem mas também não atende pelo SUS, nem pelo
Ipasgo e nem pela Unimed. Lá só na grana viva mesmo. Psiquiatra tem
bastante. Mas agora eles só atendem os ricos que podem pagar consultas
particulares e cobram preços pornográficos. Os baratinhos, fim de feira,
quase aprendizes, estão cobrando R$ 150,00 por meia-hora de consulta e os
que já aprenderam por quê a porca torce o rabo cobram R$ 250, R$ 300,
alguns bem mais que isso. E os pobres que morram loucos nos bares da vida
que eles cagam e andam para a saúde mental da população. Ou entra a grana,
ou o paciente que se dane.
Não tiro de todo a
razão deles. Ninguém tem que trabalhar de graça, mas é preciso pagar esses
médicos para que atendam a todos. Enquanto isso eles bem que podiam atender
aos sábados e domingos ao menos os pobres em piores condições. Mas se tem
uma coisa que médico não tem, talvez porque a profissão exija que não
tenha, é qualquer tipo de sensibilidade social. E como dinheiro fascina, e
a doença do rico é igual à do pobre, e o rico paga mas o pobre não,
obviamente colocam o rico no divã e embolsam a grana. É o mercadão. Os
mercadores da loucura.
Se há dinheiro para
tanto PAC, porque não há dinheiro para corrigir decentemente a tabela de
honorários dos médicos do SUS para que todos eles, de todas as
especialidades, se interessem em trabalhar e atender a todos os cidadãos
dentro do espírito constitucional do artigo 5º de que todos são iguais e
não podem ser discriminados? É aí que eu digo que bastaria uma assinatura.
Muitos médicos vão abusar e roubar o SUS, mas logo a fiscalização os
localiza, os processam e entregam para a Justiça.
Meu psiquiatra no
Canadá me atendia no consultório dele, bonito e bem localizado, não me
custava um tostão, nunca fui tão bem atendido, até porque meu inglês ainda
não era bom e ele se matava para me entender e me ajudar mesmo assim. E o
governo pagava a ele 98 dólares por 45 minutos de consulta. Sem guias e sem
mais nada. Bastava eu apresentar a minha carteirinha de saúde do governo.
Lá o médico é honesto e não rouba o sistema porque se o fizer vai preso por
roubar o Estado e ainda perde a licença médica.
Ninguém está pedindo
nem divã e nem ar condicionado. A gente topa até ser atendido na sarjeta,
desde que o psiquiatra nos escute, entenda a nossa dor e busque um
medicamento que nos ajude a empurrar a vida e carregar a doença ao mesmo
tempo. Os ricos odeiam sarjetas e sempre pagarão até R$ 500,00 para serem
atendidos por depressões sérias ou nem tanto. Psiquiatria cura frescura
também. Mas a saúde mental da população está indo para o vinagre por causa
desse estilo de vida que a própria vida acaba forçando as pessoas a terem,
e causando um prejuízo muito sério. Mais e mais pessoas já não conseguem
mais trabalhar por distúrbios mentais. Gasta-se fortunas em licenças
médicas, auxílio-doença e outros benefícios só por doenças mentais. Fora os
acidentes e outras doenças.
Estar sofrendo
muito, ver o médico passar do seu lado, e saber que ele só te atenderá e
cuidará de você se deixar lá 1/3 do que ganha por mês por 30 minutos de
consulta é uma ofensa que o povo não merece. Agem como putas. Só que para
putas há alternativas e para médicos ainda não. Aí é que a coisa deixa de
ser decente. Eu sou um homem de sorte que consegue ter Unimed e consigo ser
atendido pelo único psiquiatra de lá.
Mas me dói a dor do
próximo, e vocês sabem que me dói mesmo.
06.11.2008
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© 2008, José Caparica Neto
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