Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Festão da morte

 

Zé Caparica

 

Se tem uma coisa engraçada, mas que é mais curiosa que engraçada, é quando a gente levanta temas conflituosos, como o que eu escrevi ontem, e a reação dos leitores se divide por igual. Metade concorda, endossa e ainda cita mais exemplos, e a outra metade quer te ver torrando no inferno. Eu cometi uma falha muita grave ontem e por isso estou fazendo esse preâmbulo. Há homens que também não querem ter filhos porque querem ser “felizes” a vida inteira. Queria dizer às mulheres que eu os considero tão indecentes quanto. No mais é só a minha opinião. Tem dias que eu extrapolo mesmo.

Mas deixemos tudo isso pra lá porque hoje é dia de alegria, Dia de Finados, feriado nacional, mundial, sei lá, mas que tem um lado festivo muito interessante. Tem o lado romântico e introspectivo, de se lembrar com saudade do ente querido que já se despediu da deliciosa alegria de viver. Se não há vivo querendo morrer, juro pra vocês que também não há mortos querendo ressuscitar. Mas eu mesmo, já pensando no dia, fiquei pensando nas avós, tias e demais derivados que já morreram e como era bom viver com eles.

Minha irmã mesmo morreu adolescente, já há mais de 30 anos, e eu abri um sorriso para ela também. Mas tudo isso são detalhes. Por mais que a morte deixe saudade a vida sempre continua, mesmo para aqueles que juram que a vida acabou para sempre. Quando eu era criança me divertia muito com as pessoas que, bem na hora de fechar o túmulo, gritavam: “Eu quero ir junto!!!”, mas nunca se jogaram na cova. Mas, enfim, despedida de vivos, à beira do caixão, é pura emoção e tudo o que é pura emoção carece de racionalidade. Então está tudo perdoado e os ridículos a gente esquece.

Mas e a vaidade? Ô, praga desgraçada! Minha família, fechando entre minha avó e minha mãe, encerram todo e qualquer vínculo com os mortos. Minha avó, espírita que era, achava que se tratava de um caso banal de desencarnação, portanto não havia ali uma morte. Tanto que não chorava nem em enterro de filho e neto. Ou chorava escondido e ninguém viu. Minha mãe já crê que o espírito fica lá junto com o corpo, debaixo da terra, esperando o dia profético da revelação de João, quando ele diz que a terra e os mares devolverão seus mortos para serem julgados segundo suas obras. Então nós fomos criados para até esquecer quem morreu, não vamos a cemitérios, não sei onde meu avô está enterrado, e pra falar a verdade, tirando a minha vó que jaz em paz no Cemitério do Morumbi, não tenho a mais vaga idéia onde se encontram os dejetos dos demais.

O túmulo da minha irmã é mantido limpinho por uma pessoa que vive disso no cemitério de Araraquara. Ganha lá uns “vintão” por mês e quando quer vai lá e joga uma água, deixa o túmulo “apresentável”. Para os outros. Nem ela vai ver túmulo. O que há de minha irmã lá se não apenas um amontoado de ossos? Celi viva era adorável. Morta não tem utilidade nenhuma. Mas não é assim que pensam as pessoas. Tanto que a feira de Finados em porta de cemitério é uma coisa de louco. Primeiro de tudo que é o “natal” dos floristas. Então as flores que ontem custavam R$ 20 hoje estão em oferta por R$ 40. As velas então, parafina barata com um barbante no centro, parecem folheadas a ouro. “É 3 por 10, freguesa!!!”.

Sabe que até me ocorreu uma analogia? Atualmente está rolando o Salão do Automóvel em São Paulo, e obviamente, além dos carros serem bons e lindos, gasta-se uma fortuna em estandes para apresentá-los. É a vestimenta, o supérfluo mas que, vez ou outra, quando feito por gente realmente boa, faz realmente uma diferença. Quando a gente está com sorte, um buquê de flores para a mulher que queremos conquistar nos rasga R$ 50, porque aquilo murcha tudo, fede e vai para o lixo. E nem são tantas as flores. Em Finados os preços dobram, e as vendas triplicam. Não dá nem pra ver o nome do defunto porque colocam flores e acendem velas bem na frente da plaquinha que dá a informação.

Depois tem as admiradoras de túmulos enfeitados para Finados. Andam pelas ruas e vão comentando, como todos os mortais em locais de exposição, que este túmulo está bonito, este está feio, que este, coitadinho, deve ser pobre pois só tem 6 margaridas. “Olha essa flor, Mariquinha, que gracinha! Onde será que vende, heim?”. Correm para ver a disputa dos milionários. Família tradicionais, de sobrenome poderoso, e que gastam mais que o valor de uma casa para fazer um jazigo para os seus.

Daí os turistas de cemitério, e eu adoro ser um deles, ficam comparando as decorações. Uma vez eu vi um caso de uma família, que eu prefiro não adjetivar, que contratou um “paisagista-decorador” que torrou fortunas em tulipas e outras flores raras, como se estivesse fazendo o arranjo de mesa do banquete de casamento da moça mais rica e linda da cidade. O arranjo ficou lindo, mas o gesto foi de uma baixeza que me impressionou. Aliás, se era para impressionar conseguiram. Todo mundo achou que dava para alimentar um bairro de famintos com o que gastaram ali.

Faz um bom tempo que não vou ver o camelódromo em porta de cemitério em Dia de Finados. Quando eu era moleque era só flores e velas, e uns poucos ofereciam uns vasos que poderiam ser trocados para a ocasião. Hoje vendem de chupetas para crianças que não entendem a importância do festejo, até vendedores de CDs piratas, bijouterias e outras coisas de elevada importância.

E depois ainda me perguntam porque eu amo tanto o Brasil. Onde mais se diverte tanto? Basta acabar com a miséria e diminuir bastante a desigualdade social que esse será o paraíso na Terra. Este é o país onde anjos e demônios, bandidos e polícias, políticos e eleitores, se encontram para tomar uma cervejinha e devorar uns petiscos quando não estão em serviço. Depois voltam a se odiar. Até ser defunto no Brasil é melhor que em qualquer lugar do mundo. Aqui a gente não perde a oportunidade. Bobeou a gente faz a festa mesmo.

02.11.2008

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