Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fanta quente

 

Zé Caparica

 

Hoje é aniversário da minha avó Iracema, aquela que eu sempre digo que jaz em paz no Cemitério do Morumbi. Pena não ter uma foto em que eu possa mostrá-la a vocês. A velhinha era uma gracinha. Mas era muito brava, severa, ordeira, tinha regras, não abria mão, e quando ela falava todo mundo calava. Depois quando ela ficou bem velhinha esculacharam um pouco, mas enquanto ela esteve bem lúcida e saudável ela mandava mesmo. Hahaha...

Minha avó nasceu muito pobre. Pobre de um tanto que aos 22 anos de idade, com dor de dentes, e sabendo que a rapadura é doce mas não é mole não, mandou arrancar todos os dentes e colocou uma dentadura. Pronto. Dor de dente nunca mais e economia com dentistas para sempre. Com muita luta e esforço, coisa de gente voluntariosa mesmo, conseguiu se formar na Escola Normal de Botucatu e virou professora, profissão que exerceu com genialidade por toda a vida.

Antes de eu nascer meu avô já tinha morrido e não era exatamente um santo. Mas ela era. Minha avó tinha uma noção de caridade e respeito ao próximo que era de emocionar. Era extremamente econômica, mas só comprava coisas, principalmente comida, de alta qualidade. Óleo, só de milho e Mazola. Manja o clima? Quando é que se sabe que vai-se precisar de leite? Então com ela era só leite em pó Ninho. Latas enormes. Lembro bem. A mesma receita desde o primeiro ao último dia. Obviamente não tinha gosto de leite de vaca, mas tinha gosto de leite da casa da minha avó. Garrafa térmica, nem pensar. Café no bule, com tampinha no bico e esquenta só o que vai tomar.

Enfim, para a família, dia 24 de outubro era feriado. Aniversário da vó Iracema. Era gente a dar com pau. Minha tia solteirona morava com ela e era quem organizava tudo. Álcool nem pensar. Nem uma cervejinha. Nada. Cuscuz tinha todos os anos. Também a mesma receita e formato da primeira à última festa que fui. Era legal. Mas as lógicas da minha avó eram lineares. Por exemplo: Se ela fazia um bolo e colocava bastante manteiga na receita, achava que eu não deveria passar manteiga no bolo para comer porque seria um desperdício. Não pelo preço. É que ela já tinha colocado manteiga.

Refrigerante era tudo igual. Então não tinha Coca-Cola, que era mais cara, mas tinha Fanta e similares, que tinha a mesma qualidade. Era muita gente, e portanto muitas Fantas. A geladeira era pequena e minha avó não gostava de complicar. Esse negócio de gelar refrigerante era frescura. Então o que passava ali para beber era Fanta quente. Não era quente, um exagero meu, mas era morninha. Ano após ano, décadas de Fanta morninha, cuscuz e outros quitutes que se preparava por lá mesmo. E, se querem saber, era uma delícia. E por dois motivos. Primeiro porque era uma confraternização maravilhosa. Por minha avó ser uma pessoa muuuito querida, dia 24 de outubro era dia de ver todos os parentes reunidos do lado da minha mãe. Foi a única forma de eu vir a conhecer as primas velhas e seus decendentes.

Só para dar um panorama, no dia que minha avó fez 70 anos tinha tanta gente, que acabei até por conhecer a filha da amiga da vizinha da comadre de uma prima de 2º grau da minha vó. Era uma gracinha. Sobrinhos e mais sobrinhos apareciam e nos eram apresentados. Foi muito legal e muito estranho. Um monte de gente que amavam Dona Iracema mas nem se conheciam direito. Tiveram que dobrar a receita de cuscuz e compraram Fanta a dar com pau.

Vó Iracema nasceu em 1899. Faria hoje 109 anos. Morreu aos 90, o que significa que já se vão quase 20 anos. E todas as grandes lições dessa mulher ficaram gravadas em minha memória. Essa foto ao lado lembra levemente o jeitinho dela, mas a escolhi pelo amor que ela tinha com os passarinhos que iam comer em seu quintal. Todos os farelos de mesa eram reservados para eles. Nunca fui o neto mais querido. Longe disso. Estava bem mais para o final da fila. Nunca tive as virtudes que ela tanto prezava. Mas quando os mais amados não estavam por lá ela sempre me agradava. Mas, sargentona como era, me agradava com os agrados dela. Um carinho, uma repreensão, um elogio, uma condenação, um beijo, um afastamento, a velhinha era muito especial mesmo.

Hoje dorme feliz e serena no cemitério do Morumbi, ao lado de Ayrton Senna e outros famosos. Para quem nasceu pobre, lutou a vida inteira, e deu quase todos os fundamentos básicos de decência, tenacidade, honradez e amor ao próximo para todos os filhos, netos e bisnetos, acho até pouco. A única virtude de Ayrton Senna foi ficar correndo em círculos e namorar a Adriane Galisteu. Bela bosta. Minha vó foi muito mais útil para o Brasil e para a humanidade.

Mas... Vóóóó!!! Pelamordedeus!!! Bota gelo na Fanta!!!

24.10.2008

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