Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Falsos Brilhantes

 

Zé Caparica

Pirataria toma uma dimensão tão amalucada, que muitas vezes se pega o original e se transforma no falso pra vender melhor. Outro dia um amigo me perguntou o que eu faria se alguém copiasse todas as minhas crônicas e editasse um livro como se fosse dele. Disse que abriria um processo e iria exigir meus direitos, mas duvido que a pessoa pudesse pagar. Afinal nem os textos são tão geniais e nem há tantos leitores interessados em crônicas. Se não comprariam um livro publicado por mim, com a “grife” Zé Caparica, porque haveriam de comprar com a grife do Zé das Couves?

Grife é tudo na vida. Vivo dizendo que o meu sonho é que um dia um cronista de qualidade, um Jabor, Veríssimo, Mario Prata, ou um outro qualquer que tenha bastante leitores, comentasse que viu algo no site do Zé Caparica. Nem precisava dar o endereço. As pessoas iriam procurar no Google e encontrariam. Ia chover leitores na minha horta. Costumo dizer que se o Arnaldo Jabor escrever que bosta é gostoso, no dia seguinte tem 200.000 pessoas experimentando. Pelo menos cheirando e com vontade.

Mas o que está acontecendo na internet é o contrário. Pegam um texto interessante de um desconhecido, colocam como autor um famoso, Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, e distribuem pelos e-mails da vida. Ao ver que se trata de um “Veríssimo”, a pessoa que recebe o e-mail lê, se delicia, pensa “esse Veríssimo é mesmo ducaray!!!”, e passa o texto adiante certo que irá instruir e divertir seus outros amigos. No meu site tem, logo abaixo das minhas crônicas, a seção Texto Legal, de pessoas famosas ou anônimas que eu escolho e publico. Até para que eu não fique totalmente desacompanhado. Se a crônica for ruim sempre há a possibilidade do Texto Legal ser bom.

Recebi um texto lindo outro dia. Tinha foto e tudo. “SOLIDÃO VISTA PELO CHICO BUARQUE” clique aqui para ver. Eu costumo conhecer autoria de famosos pelo estilo do texto. Um Jabor legítimo eu reconheço com poucas linhas e, obviamente, o falso também. Ao ler o texto senti que faltava um “algo” que Chico Buarque imprime em todas as suas poesias, falas, prosas, cantos ou música. Chico é incomparável. O texto apresentado é lindíssimo, extremamente tocante, objetivo e claro, até mesmo do estilo buarquense, mas estava “estranho”. Assim como nunca li melhor definição para a palavra saudade como “a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”, que Chico escreveu na música “Pedaço de Mim”, também nunca tinha lido uma definição tão bem feita de solidão e os enganos que fazemos a respeito dela. Veja que final: “Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pelas nossas almas”. Que frase genial. Amei.

Resolvi então que iria publicar o tal texto do “Chico Buarque” no Texto Legal. Como sempre faço com textos que aparecem do nada, pego um trecho e coloco no Google para conferir a autoria. Vi que um monte de gente tinha caído no conto do vigário e publicado em seus blogs dando crédito ao mestre. Mas fui buscando com mais atenção e vi que uma outra pessoa já tinha descoberto a farsa. O belo poema é, na verdade, da grife Fátima Irene Pinto, poeta paulista de 55 anos, batalhadora bancária e funcionária pública, que só em 2001 conseguiu, como presente de um sobrinho, publicar seu primeiro livro e, pela qualidade de seu talento, tem hoje um contrato com uma editora mineira até 2010. Esse poema, “Solidão”, com a autoria dela mesmo, além das várias traduções feitas, já foi abertura de mestrado da acadêmica Vera Lúcia Vieira no "La Moderna Soledad Feminina". (conheça a autora e sua obra: http://www.fatimairene.com/especial/biografia.htm) Resolvi então fazer essa crônica e amanhã o texto dela sai em Texto Legal, como convidada especial à força. Eu dou o crédito e ponho a foto, mas nunca peço autorização. Qualquer dia me processam.

Arnaldo Jabor já cansou de dizer em entrevistas que não se responsabiliza por qualquer texto que correr pela internet com seu nome, que não possa ser conferido ou lido em seu site. Luís Fernando Veríssimo, também de estilo inconfundível, é vítima desses autores fajutos, que querem que o povo leiam seus textos com falsa assinatura, ou não seriam lidos por falta de “grife”. Às vezes, sinceramente, nem há má fé. A pessoa se acha expert em literatura de famosos e ela mesmo avalia: “Ah, isso é um Chico Buarque! Vou editar e distribuir aos amigos!”. Como se fosse fácil.

Paulo Sant’Ana é outro que padece com sua obra. Escreveu um belíssimo texto, “Dia do Amigo”, e a coisa percorre a internet como sendo obra de Vinícius de Moraes. Veja o original clique aqui. É mesmo uma coisa desagradável. Paulo Sant’Ana não é um escritor tãããoooo conhecido, mas publica no Estadão. Também não é nada mal. Morro de inveja. Mas pegar uma obra sua, de tanta qualidade, num tema tão complexo como a amizade, e querer deixar ainda mais lustroso dando uma falsa autoria é o fim do mundo. Sinceramente, Vinícius, Jabor, Veríssimo, Chico, qualquer um, morre de vergonha de se passar involuntariamente como autor da obra alheia. Mesmo que seja melhor da que eles conseguem produzir.

Outro dia mesmo uma pessoa me disse: “Você escreve que nem o Fulano Não Sei O Que Paixão!”. Caramba, e eu pensei que eu escrevia como eu mesmo, sem estilo e nem nada, puro auto-didata metido a besta. Já estou sendo tachado de plagiador e nunca vi nem li um texto do tal Paixão. Nem sei onde ele publica seus escritos. Vai ver o cara é que está me copiando. O que pode acontecer, obviamente, é que qualquer dia vão pegar um texto meu que acharem parecido com o do tal Paixão, e vão espalhar pela internet com o nome dele. Ele não merece isso.

Já há páginas dedicadas a isso no orkut. Tem uma comunidade que se dedica a tirar dúvidas quando você quer conferir se o autor é autêntico. Acesse o link: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=679171 Já começa contando a história de Barbra Streisand, que pagou um mico citando um texto como sendo de William Sheakespeare, e não era, e ela teve que confessar que leu na internet como sendo do famoso dramaturgo quinhentista inglês. Que vergonha.

Enfim, a dica é: ao receber textos vindos pelo e-mail, pegue a primeira frase inteira, coloque no site de busca do Google e busque o autor. Confira várias fontes. Não acredite em blogs de desconhecidos. São iludidos também. Espero (e não espero) que um dia um texto de qualidade corra pela internet com o meu nome e todos fiquem maravilhados. Mas, podem ter certeza, morrerei de vergonha. Se um dia eu fizer sucesso com meu trabalho diário aqui me darei por satisfeito. Já imaginaram um autêntico Chico Buarque assinado por Zé Caparica correndo pelo mundo? Heim? Vou me sentir ridículo, mas vão me achar o máximo.

26.08.2008

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