Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esculhambação sexual

 

Zé Caparica

 

Li há alguns anos que o Brasil seria o país que mais contribuiu para a formação de uma nova raça de gente. A gente brasileira. Gente bonita, saudável, de beleza marcante, curvas definidas, coisa linda mesmo. Os exemplares feios são bem feios também, mas são de real minoria, e acho que temos a maior taxa de “simpáticos e bonitinhos” do mundo. Simpatia, na verdade, embeleza qualquer rosto. E o bonitinho é o “feio arrumadinho”. Também não é feeeeio. É a culpa do gene do nariz do pai que nunca ajuda, aquelas coisas. Mas a verdade é que nós formamos, na grande maioria, um povo muito lindo mesmo. E há teorias. Endosso algumas delas.

A principal delas é que houve de fato uma certa desorganização na chegada dos portugueses ao Brasil em 1500. Se o relato do meu saudoso antropólogo Darcy Ribeiro estiver certo, depois de cruzarem o Atlântico em românticas caravelas, aqueles “nobres marujos” se depararam com um monte de índias lindas e nuas a se banharem nos rios e lagoas. Não tinham qualquer vergonha. Daí viram que na tribo ter cunhado era muito bom. Eu explico. Um homem tem mais força. Se eu te dou uma irmã para casar, ganho um cunhado para trabalhar, ajudar, fazer força. A portuguesada fez a festa. É capaz até de ter português se oferecendo para fazer horas-extras e ficar com duas índias peladonas.

Mas a idéia romântica é totalmente humorística se formos ver com olhos sérios. Português é míope em relação ao sexo. Qualquer uma serve. Chega a ser risível. Imagine que as pessoas que vinham para cá vinham em naus onde só havia homens. As pessoas que se aventuravam nessas loucuras do outro lado do mar eram pessoas sem compromisso algum com nada ou ninguém. Até o frade Henrique de Coimbra, que só esperou talharem uma cruz improvisada para mandar ver uma missa no dia seguinte, não deveria ser lá muito santo. Mas perdoava os pecados.

Basta pensar que os portugueses que para cá vinham também eram, muitos deles, mestiços de outras invasões européias (os árabes dominaram Portugal por um bom tempo, por exemplo), e começou em terras de ultramar a mestiçagem sem fim. Cada tribo indígena tinha seus costumes e suas características, mas os portugueses em geral, comiam todas. Os bandeirantes e sua horda também. Acho que foi nessa época que lançaram a frase porca “mijou sentado e não é sapo eu tô comendo”. E todos sabem que a abordagem lusitana à época não era das mais diplomáticas. Era melhor dar logo mesmo.

Mas logo resolveram encher o Brasil com uma outra raça, ainda mais radical, que foi o tráfico negreiro, dada a dificuldade de escravizar os índios, e os portugueses também não perdoaram. Afinal eram africanas mas mijavam sentadas e não eram sapos. Diversão da molecada era fazer a farra nas senzalas. Devia ser bom ser “sinhozinho”. Coloque nessa ‘buchada de bode’ cultural que estamos fazendo que os costumes marcam a rotina. Se depois vieram outros europeus, além das imigrações que se seguiram, árabes, alemãs, japonesas, chinesas e o resto, todos viam que aqui no Brasil as pessoas são, de uma maneira geral, sexualmente bem-vindas. Não sendo feio demais, desfilar com um namorado importado até hoje dá um certo charme.

E então a bunda redonda da neguinha foi parar no traseiro achatado da alemãzinha, os cabelos escorridos do índio ficou mais ondulado com o pichaim do negro, os filhos do alemãozão graúdo saíram maiores que a portuguesa baixinha e aí que se perdeu o controle. Apesar do racismo milenar entre judeus e árabes, e outras raças em geral, ao verem que aqui no Brasil, em termos de relacionamento sexual, “todo mundo é de todo mundo e ninguém é de ninguém”, os filhos dos racistas não entendem a importância dessas “culturas” e o judeuzinho não vai perder a oportunidade de namorar com a linda arabezinha porque ela é da tribo 345 que jogou uma bomba no assentamento 829, em 30 de outubro de 1932, às 20h45, em ponto. Essas preciosidades são besteiras. Aqui a gente é do amor e do arfar feliz. E saem filhos bonitos. Aquela pele moura, linda dos árabes, sombrancelhas fartas, olhar sensual, com o jeitão peitudo das judias e seus olhos multicoloridos. Depois o filho deles se casa com uma mulata, e ela vira a rainha da escola de samba do bairro.

- Qual seu nome, querida?

– Marllynette Mohammed Spielberg da Silva.

Eu tenho uma amiga que é filha do casamento de uma inglesa alva e de olhos verdes, europezaça, que se encantou com o índio amazônico que virou médico. Daí nasceu gente de todas as cores, e ela ganhou a cor branca e os olhos verdes da mãe. Mas ela se casou com outro “índio” e aí sairam dois filhos com a cara do pai e uma com a cara da mãe. Três crianças diferentes, mas todas muito lindas.

O que me chama a atenção, de verdade, é que o que menos importa é a origem das pessoas. Uma das mais robustas provas de que a Natureza é sábia e que a Teoria da Evolução é mesmo uma realidade é que, via de regra, sempre se aproveita o melhor de cada raça. Há exageros aqui e ali, mas fora as pessoas que estão fora do peso correto, não há em geral pessoas peitudas demais, bundudas demais, com pés gigantescos e com cabelos intratáveis, bem como não há gigantes e poucos baixinhos. Quando se olha, de um modo geral, se vê um povo brasileiro bonito, alegre e feliz, todos dizendo orgulhosamente de suas origens, etc. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC pra quem não se lembra) resolveu dar uma gafe e dizer que tinha o pé na cozinha, indicando que um pouco de sangue negro corria em suas veias. Se dissesse que tinha um pé na senzala seria um pouco mais justo.

Talvez esse seja mesmo o maior legado que o Brasil poderia deixar para a humanidade. Acabar com essas besteiras de conflitos étnicos e de guerra na cama. Nada de discussões “homossexuais”. OS diplomatas vão negociar com AS diplomatas onde eles quiserem. De preferência no motel. Os presidentes e primeiro-ministros também só com as mandatárias do sexo oposto. Não é um ‘swing’, uma troca de casais, mas simbolicamente é como se fosse. Bota o Barack Obama para debater a paz com a mulher do Osama bin Laden que em 30 dias acaba o terrorismo na Terra. Enquanto isso Bin Laden explica como é difícil viver nas cavernas frias do Afeganistão para a mulher do Barack, Mrs. Michelle Obama (bonitinha ela, né?).

Como todos os que brigam com seus pares sabem, 98,76% das discussões terminam num refestelante e delicioso sussurrar de “eu te amo” nos lençóis da vida. Então não tem jeito de dar errado. A coisa só deu errado na Segunda Guerra Mundial porque Hitler era ‘gayzão’ e não queria debates do estilo. Daí a bicha se achou melhor que as outras, o que é natural, e saiu para destruir o mundo. Ao invés de esculhambar o sexo, coisa que os portugueses nos ensinaram com brilhantismo, esculhambaram com a paz na terra e fizeram uma guerra atrás da outra.

Temos muito o que ensinar ao mundo. Mas eles não perguntam...

11.11.2008

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