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Competências
Zé Caparica
A questão da
competência veio à baila por uma razão. Há um tempo escrevi uma crônica que
falava de administrar nosso tempo, porque ainda não vão inventar um dia com
mais de 24 horas brutas, o que significa que tirando as horas de sono, de
transporte e de trabalho, não dá muito mais que 4 a 5 horas úteis por dia.
A menos que se considere que trabalhar seja hora útil. Se fizerem o
trabalho com o prazer que eu produzo meu site pode acreditar que as horas
são úteis. Muito úteis, aliás. Mas pelo tanto que reclamam nem todos devem
pensar assim. Cada um pense como quiser, mas o fato é que, se tem que ficar
lá no trabalho, está preso e ocupado e não há tempo para mais nada que não
seja trabalhar e produzir. Se for funcionário público a gente adapta.
Um leitor me escreve
e diz que leu uma crônica anterior, “Atrás do Tempo”, gostou muito, até
tentou priorizar o tempo para dar certo, mas na semana passada teve que
terminar um namoro, coisa que o deixou profundamente entristecido, por
“falta de tempo”. Faltou combinar. E se foi combinado, é preciso apurar
quem saiu do trato. Vejamos. Se fazendo as contas acima não temos mesmo
mais que 4 a 5 horas úteis por dia, às vezes 6 ou 7 se dormirmos menos, a
namorada precisa entender que haverá um horário dedicado a ela, e nesse
horário tudo será só para ela. Mas as outras horas não. Se for educada e
inteligente, não fica ligando 4 ou 5 vezes por dia para conferir se o outro
ama de verdade. Claro que ama. Tanto que a suporta.
Mas um namoro não é
um casamento. Tem limitações. E aí é que eu acho que meu leitor falhou.
Talvez ele até tenha priorizado os horários dele de acordo com o que fosse
melhor para a vida dele, mas não impôs limites e nem foi rígido o
suficiente ou necessário. Nosso maior inimigo de horários somos nós mesmo.
Ou disciplina ou desanda. A disciplina é um dos maiores bens dos homens.
Não é o meu caso. Até outra leitora, muito grossa aliás, me mandou um
e-mail cheio de erros, dizendo que eu escrevi “exotérico” errado, achei
estranho e fui ver no Aurélio que se pode escrever exotérico ou esotérico,
tanto faz, mas com X fica mais correto por vir do grego “exotérikus, pelo
latim “exotericu”. Disse mais, que eu sou um invejoso e rancoroso, etc, e o
pior é que nem citou a crônica. Fiquei perdido.
Qualquer um que me
acompanha sabe que eu não sou exemplo pra nada. Sou um homem cheio de
fraquezas e defeitos e que sabe o valor das virtudes. As que consigo
praticar, pratico. As que não consigo, fico sem a virtude. Será que eu
tenho inveja de grandes cronistas como Arnaldo Jabor, Luís Fernando
Veríssimo ou Millôr Fernandes? Claro que eu tenho. Mas eu quero e luto
apenas para abrir o meu espaço e não para derrubar o deles. Eles estão há
décadas na minha frente. Eu ainda estou no meu primeiro ano, com 151
edições. Falta muito. E eu faço uma edição inteira por dia e sozinho. Eles
não. Mas vamos voltar ao drama do rapaz porque, como sempre, os estúpidos
que me criticam, e eu adoro críticas, nunca colocam o endereço de e-mail
correto, que é para não terem respostas. Não são capazes de ler respostas.
Então que vão à merda. Vou abrir uma seção de cartas de leitor e quem
quiser é só ler o que escrevem. Tudo de bom e de ruim, sem exceção,
democracia bruta mesmo. Os covardes nunca assinam o próprio nome mesmo, mas
dá para comparar com os elogios.
Já estou divagando e
essa crônica é para ajudar o meu leitor. Quando eu falo de prioridades
significa ter que escolher. Tem que ir à escola mas tem um filme (im)perdível
no mesmo dia? Tudo bem. Se optar pelo cinema, priorizar o lazer, não se
esqueça que vai perder a matéria da aula e terá que recuperá-la, de alguma
forma, para não se prejudicar nas provas. Vai ter que sacrificar umas horas
de sono para estudar a matéria perdida, e mesmo assim ainda poderá fazer
falta na prova e acabar tirando uma nota mais baixa. Foi a escolha feita. A
hora era de ir estudar. Seria prioritário. Quem mudou a prioridade foi o
interessado em não perder o filme. Devia ser um filmaço mesmo.
Nós somos o centro
de nossas vidas. Às vezes dizemos ou colocamos que nossos filhos são mais,
mas isso pode ser lá na frente. Nós temos que nos bastar. Enquanto se está
construindo a vida temos que ver nossos interesses. Se um romance acabou
por falta de tempo é porque não houve competência em administrar isso, ou
dar o tempo necessário. Não se pode oferecer meia hora por semana para a
namorada e querer que ela ache que está bom. Mas também se combinou 2 dias
por semana pra namorar, não há o que justifique o terceiro. Se for vai
tirar outra coisa que deveria ser feita no horário. Ah, ela quer mais? Então
vamos sofrer, vamos nos entristecer e lamentar, mas vamos ter que conseguir
outra namorada que saiba lidar com horários e, o que é mais importante, com
aquilo que combinou.
Algumas pessoas
julgam, e em raros casos dá certo, que se trabalhassem ou estudassem num
mesmo lugar as relações seriam melhores. Eu não acredito muito nisso. A
vigilância é muito grande e namoro ou casamento não é uma pena a ser
cumprida. Se não há confiança melhor ficar só. Mas ficar só é ruim... Eu
sei disso. O que ficou claro na outra crônica e que na minha opinião é
assim mesmo, é que queremos fazer muito, o tempo é único e igual todos os
dias, e se não colocarmos as coisas em prioridades não faremos as que nos
interessam mais. É claro que muita coisa não poderá ser feita. Se fizermos
teremos que despriorizar alguma coisa. Passar na frente. Furar a fila. A
vida também é feita de frustrações.
Certa vez aconteceu
um diálogo que me surpreendeu. Convidaram o fulano para ir passear e beber,
e ele argumentou que não iria porque tinha que estudar. Os outros riram,
insistiram, mas ele levou na boa e disse: “Depois que eu me formar vai
sobrar tempo demais para passear e beber!”. Hoje ele é engenheiro mecânico
de uma grande empresa, e os amigões que passearam e beberam continuam medíocres,
sem esperanças muitas e, muito provavelmente, devem estar passeando e
bebendo. Fiado, quem sabe.
Dica 1 – Estipular
importâncias na vida (prioridades). Dica 2 – Encontrar formas de fazer as
coisas bem feitas mas de maneira rápida e eficiente. Dica 3 – Qualquer minuto
é precioso. Não o desperdice. Vá juntando que sobra um tempinho para algo
extra. Dica 4 – Desista de abraçar o mundo, porque é impossível e só gera
frustração. Dica 5 – Dê o passo do tamanho da sua perna e vá até onde seu máximo
conseguir. E sinta-se feliz, porque a maioria dá o passo maior que a perna
e não chega a lugar algum.
Amor e namorada são
coisas que a gente vai substituindo. Não é agradável, mas é uma verdade. É
muito mais fácil encontrar uma namorada legal que um bom emprego. E,
convenhamos, namorada legal não enche o saco, né? Namorada legal é
compreensiva e vê o mundo com uma perspectiva mais longa. Hoje não deu para
fazer muito. Mas haverá amanhã e o amanhã será ótimo.
30.10.2008
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