Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Colo de mãe

 

Zé Caparica

 

Tem dia que depois da tempestade a maré fica tão boa que a gente até acha que a chuvinha não foi tão forte assim. Dizem que é como parto normal. Todas morrem de medo mas esquecem que é uma dor que, no momento que a criança nasce, acaba completamente e não há cirurgias ou qualquer outra coisa. Aliás, não sei se é preciso explicar, mas gravidez não é doença, então parir não precisa de cirurgia. É que, como eu escrevo incessantemente, obstetras, psiquiatras e outros médicos do gênero são mercadores despudorados, e eles sabem disso, e pouco se importam. Querem fazer o parto na hora marcada, conveniente para eles, e o risco da cirurgia, aliado às dores, desconfortos e uma cicatriz sempre feia fica de presente para a mulher que acredita nas abobrinhas que eles falam. Eles só fazem a cesárea porque ganham mais e trabalham menos. Azar o delas.

O Brasil fica com duas manchas feias em termos de saúde pública. É o país do mundo que mais faz cesáreas eletivas (onde não há necessidade, apenas opção pelo não-natural) e, acreditem ou não, é onde ocorre mais infecção e até morte porque é uma cirugia de grande porte. Criança não é do tamanho de um rato. Cinismo é acertar o buraco na hora de fazer e errar na hora de tirar. Deveriam inventar o sexo cesariano também. Imagino até a cena: leva-se um canivete, faz um buraquinho na barriga, “faz amor” por ali, depois dá os pontos e voltam pra casa. Os ricos vão para o Motel-Hospital Nossa Senhora Aparecida.

Mas eu falava de mamãe. Doce velhinha. Tá lindona na foto, não tá? Eu fiz minhas chantagens e ela veio me visitar aqui no Goiazão. Acho que a minha mãe é o tipo de namorada que eu busco ter. Ela nem chegou e estava desesperada para saber o horário de ir embora. Dessa vez eu fiquei triste porque eu andava carente de mãe mesmo e queria ficar ali deitadinho no colo dela. Mas deu azar, problemas técnicos no site, de forma que só aproveitei metade da visita. E a outra metade nós ficamos conversando. Mas quem vê a gente conversando não entende como é possível aquilo ser amor e ao mesmo tempo uma conversa ardorosa e gentil entre mãe e filho. Nós dois só sabemos conversar assim. Aos berros e um falando que o outro está errado em 100% dos casos. Concordamos, todavia, que ela é mesmo a minha mãe e ela garante que sou o quinto filho, sempre pensei que era o quarto, mas ela me informou que perdeu o anterior a mim. Apanhei no lugar dele...

Mas, entre berros e discussões e deboches do “erro” do outro, paramos no meio das frases, fazemos um comentário breve sobre a saúde da tia Mariquinha, ou um comentário outro banal, mas logo recomeçamos o “diálogo” aos berros e desdenhando a opinião do outro. Se vocês querem saber eu posso ficar escrevendo o que eu quiser aqui que ela nem vai reclamar, porque minha mãe não lê meu site, odeia minhas crônicas, me acha pornográfico, (aquele pacote diabólico que os evangélicos põem nos outros), indecente, que é coisa do capeta, etc. Por outro lado me acha inteligentíssimo, morre de orgulho de eu ter o site que ela se nega a ler, acha que todos os leitores que gostam dos meus textos são maravilhosos e fica com viva e real alegria de saber que eu acabo, uma vez ou outra, ajudando as pessoas com o meu jeito de ser e me expressar e que o site e o número de leitores cresce a cada dia mais e mais.

Quando mostrei os e-mails que recebo dos leitores ela leu e botou defeito em todos. Mas por outro lado acha que os leitores comentam pouco e deveriam comentar muito mais. A coisa rola nesse tom. Daí damos uma paradinha, ficamos de beijinhos e abracinhos até um dos dois fazer uma observação. Daí danou. O outro já discorda e começa a gritaria tudo outra vez. Faz 50 anos que é assim. Com todos os filhos. Ela não sabe se expressar de outra forma (nem eu) e sofre muito por ser assim e não conseguir mudar. Tenho pena nesse sentido. Mas só nesse sentido também, porque no resto eu discordo de tudo. E ela também.

Minha mãe é diferente porque é uma velhinha especial. Ela é brava, autoritária, não concorda com ninguém, sempre dá a última palavra, como a mãe de quase todo mundo. Só que a minha está com quase 80 anos, tem a pele linda, saúde de sobra, uma lucidez constrangedora, tem independência financeira e só faz o que quer. Não ouve ninguém. Por contingências da vida é brasileira nata e canadense naturalizada, de forma que vive voando pra cima e pra baixo. Manda e-mails telegráficos. Sempre. “Queridos filhos. Embarco para o Canadá (nunca diz qual cidade) dia tal e volto dia tal. Beijos. Mamãe”. Na verdade volta quando bem entender, e daí manda o outro e-mail: “Queridos filhos, chego no Brasil dia tal”. Ela é única.

Essa independência e jeito de ser ela passou para os filhos, que são todos independentes desde jovens e nunca ficaram em barra de saia de mãe. Foi ótimo. Mas depois que a gente leva umas porradas da vida, tem coisas, situações e frustrações que só colo de mãe cura mesmo. Nem que seja pra vir aqui brigar comigo, botar defeito em tudo, dizer que eu não educo a Chula direito, e tudo mais, dessa vez me deixou saudade. Acho que é porque está fazendo planos de ir para o Canadá para ficar bastante tempo. Mas a gente nunca sabe. Daqui um mês ou dois ela pode mudar de idéia e volta outra vez. Resumão: Quem tem dinheiro e independência não precisa de conselho e nem autorização de ninguém. E podemos todos nós, filhos, discordarmos em uníssono que ela dá de costas e só faz o que quer. Então nós, filhos, olhamos um para os outros e acabamos é por nos divertir demais com a mãe que temos.

Eu andava meio pra baixo, depremidão por esses dias, e esse final de semana foi oportuníssimo para matar saudade. Mesmo colos de mães implicantes e retorquidoras como a minha fazem falta, porque sempre me faz lembrar de uma cena, eu era bem moleque, e naquela época qualquer um, criança ou adulto, entrava e saía de qualquer hospital sem ninguém perguntar. E uma vez eu vi um homem muito velhinho e acabado, mirrado, nas últimas, deixado num quarto abandonado para morrer, e a única frase que ele dizia era: “Mãe... Ô, mãe... Vem cuidar de mim, mãe...”.

Só depois de crescido é que a gente vê que, certas horas, mesmo que a mãe já esteja morta, é a única pessoa que serve para dar beijinho no nosso dodói. Seja um câncer fatal ou uma tormentosa crise de depressão. Ou até mesmo uma frescurite aguda.

Quando minha mãe morrer eu vou sofrer muito.

10.11.2008

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