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Arte tem preço
Zé Caparica
É conhecido um caso
muito contado por Chico Anysio, e um outro que foi dito por Jô Soares.
Chico Anysio dizia que estava esperando um avião, quando foi reconhecido
por um senhor que se aproximou como se o conhecesse há décadas. Isso de
fato acontece. Chico Anysio pode não saber quem eu sou, mas ele invade a
minha casa via TV há anos. Artista até gosta dessa tietagem, embora mintam
que não. Mas a pessoa veio com a frase fatal: “E aí, Chico, conta uma
piada!”. Chico perguntou a profissão dele, ele disse que era
médico, e então o humorista propôs que ele fizesse uma cirurgia ali, na
frente dele, e ele contaria duas piadas. Para ser médico, o cliente morre
na porta mas o médico não atende sem a grana paga por antecipação. Já o
artista deveria no cálculo besta do outro contar piadas de graça. Podia
comprar um livrinho de piadas na banca e não pagar esse mico.
Jô Soares, fora esse
lado que incomoda todos os humoristas assediados por mendigos de piadas,
também reclama de pessoas que querem ganhar livros de presente, ingressos
de cortesia para show, etc. No shopping a “mocinha” fala o preço, não se
discute, joga-se o cartão de crédito no balcão para mostrar o poder, e
ninguém pestaneja.
Depois vai como um pedinte pedir para os artistas darem, de graça ou pela
metade do preço, a única coisa que têm para vender e ganhar dinheiro. Em
tese primária eu acho que está certo. E vou além. No dia que eu mandar um
e-mail para o Bradesco pedindo para depositar R$ 10.000 na minha conta e
eles depositarem, eu começo a defender que não custa nada o cantor entoar
umas músicas a mais, o mágico mostrar o truque, o humorista contar piadas
na rua, o artista plástico vender seus quadros só pelo preço da tela e das
tintas, entre outras asneiras que a gente tem que ouvir.
Eu acho que o
governo deve incentivar a cultura e subsidiar os ingressos de cinema,
teatro e shows em geral. A molecada e os bem mais velhos precisam mesmo de
diversão. Mas não às custas do artista que deixa de ganhar porque é
obrigado por lei a vender pela metade. Se o estudante paga metade, o Estado
incentivador paga a outra metade. O artista tem o direito de receber o
valor do ingresso inteiro. O governo, mais precisamente deputados ordinários
que fazem essas leis para fazer média com os estudantes, deixando os
artistas sem grana, querem é a simpatia do eleitor. Ninguém está nem aí com
a vida do artista.
Funciona assim. Se
um artista já atingiu a grande fama, ter uns CDs pirateados aqui e ali não
machuca tanto porque os shows são concorridos e caros e dali se ganha muito
dinheiro. Mas essa não é a regra. Os cachês são baixos, os custos de
transporte e hospedagem são caríssimos. Os mais famosos conseguem algum
patrocínio. Os desconhecidos nenhum. Tem que sair daquilo que conseguem
juntar, e ainda vem o governo e obriga a vender ingresso pela metade do
preço, sendo que a maioria desses estudantes podem muito bem pagar a
entrada inteira? E, para piorar, aceitam carteirinhas de estudantes fabricadas
pelas jovens máfias da carteira de estudante, normalmente “grupos
estudantis” que se fazem de sindicalistas de criança que deveria estar na
escola. É uma grana na mão de cá que a carteirinha economizadora sai do
lado de lá.
Tenho quase certeza
que vocês sabem essas regras de etiqueta artística, mas eu vou escrever só
para os eventuais que podem não saber. O livro, o show, a apresentação,
aquela parafernália toda, é o material de trabalho do artista. Um livro
qualquer pode ser escrito até em 2 ou 3 dias, mas uma obra de qualidade
leva anos para ser concluída e exige muito do escritor. Então não tire dele
a única coisa que ele tem para vender. Se quiser um autógrafo de um
escritor compre o livro, e depois entre na fila para ganhar o autógrafo.
Não espere e nunca peça um livro de graça e nem um ingresso para show.
Poderia-se argumentar que é só uma pessoa a mais, ou só um CD a mais, ou só
um livro a mais, mas é esse dinheiro dos “a mais” que os artistas vivem. E
se todos têm que pagar, que amigo é esse que vai sacanear e não vai pagar o
ingresso para o show do próprio amigo? Não vai comprar o livro do amigão?
Nao vai comprar o CD do amigaço? Se eu abrir um restaurante vou ter que te
dar comida de graça também?
O que ocorre é que
se todos precisam se defender então se cria um festival de hipocrisia.
Veja na foto o que conseguiram fazer com uma carteira
de estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Os que são obrigados
a pagar a entrada inteira acabam pagando, por baixo, 50% a mais do que
pagariam se todos pagassem igual. Quem fez a lei da meia entrada, além de
populista burro, é contra producente. Um ingresso poderia custar R$ 30 para
todos. Mas como os artistas são achacados por lei, não podem fugir do
assalto, então cobram R$ 50 dos “normais” e R$ 25 dos anormais. Não custa
nada os anormais pagarem R$ 5 a mais para os normais poderem pagar R$ 20 a
menos, né?
Está para ser
promulgada uma lei que põe ordem no galinheiro. Pretendem limitar o número
de ingressos para serem vendidos por preço inferior, e sua validade se dará
apenas nos dias de semana. Pelo menos dá pra tirar a diferença nos finais
de semana onde o movimento é maior.
A vida me deu duas
oportunidades de ouro. Uma foi poder assistir ao musical “Cats”, quando eu
morava em Toronto, bem como o show de Frank Sinatra e Liza Minelli que
aconteceu no estádio coberto SkyDome. Nas duas vezes paguei 50 dólares por
ingresso, como qualquer outro mortal, estudante ou velhinho. E nas duas
vezes, como toda a equipe estava bem paga e bem estruturada, assisti a dois
espetáculos impecáveis, sem uma única improvisação.
Enquanto isso, no
Brasil, grupo heróicos de jovens atores saem em ônibus de carreira,
cenários de pano para caber em malas, hotéis vagabundos por falta de
dinheiro, praticamente mendigam comida em troca de uma divulgação em palco,
e com todas essas dificuldades, sem apoio de qualquer secretaria de cultura
de municípios, estados ou da União, ainda são obrigados a vender seu
trabalho pela metade do preço.
E só fazem isso com
artistas... Talvez porque arte não tenha mesmo valor, até que um dia um
cansa de atuar, outro de cantar, outro de escrever, outro de tocar, outro
de pintar... Um dia cansa. Pagar “inteira” para o encanador” e querer pagar
“meia” para o artista é uma vergonha. Pare de fazer isso. Pode ser só um a
menos, mas sempre ajuda muito.
13.11.2008
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© 2008, José Caparica Neto
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