Zé Caparica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arrumar armário

 

Zé Caparica

 

Eu tenho escrito repetidas vezes que a opção das pessoas pelo “ter” mais que pelo “ser” as impedem de serem mais felizes. E como um pensamento puxa o outro, me lembrei (lembrei-me) de uma situação que me fez associar com outra e que foi muito útil na minha vida. Era a forma, meio em pânico fingido, que as meninas usavam quando queriam se referir a ter que arrumar seus próprios armários. Na verdade o que embola o meio de campo dos armários dos jovens é que coisa entra e coisa sai, só que o que sai vem dobrado de algum lugar, porque alguém colocou lá (salvo casos que a própria pessoa faz), e na hora de enfiar jogam o trem lá dentro e nem querem saber onde a coisa caiu. Um dia a mãe fica nervosa e manda arrumar o armário. Oh, frase maldita. Arrumar o armário, guarda-roupa, ou o nome que se queira dar? Isso não se faz.

 Não se faz porque todo mundo finge dispor e fazer uso da “bagunça organizada”. Já vão avisando que não é para tirar nada do lugar que eles sabem onde está tudo. Mas não sabem. Já disse que as coisas não acontecem. Para a água chegar limpinha na torneira há um longo trajeto e um longo processo de captação, limpeza, esterilização, distribuição, etc. Para sabermos onde estão as coisas é preciso puxar a receita infalível da minha avózinha Iracema que jaz em paz no Cemitério do Morumbi. Qualquer dia eu arrumo uma foto da velhinha para vocês conhecerem a sargentona. Ela dizia sempre: “Um lugar para cada coisa, e cada coisa no seu lugar”. Juro pra vocês que, simples assim, essa é quase a fórmula mágica da felicidade.

Eu comecei a mexer em computador há cerca de 20 anos. Antes eram umas máquinas estranhas que só havia em bancos e algumas entidades públicas e que só rodavam aquele programa. Essa idéia de PC, personal computer, computador pessoal, eletrodoméstico de informática, foi coisa que o Bill Gates inventou com a IBM e aí, via contrabando paraguaio os primeiros micro computadores apareceram, e via vendedores de computadores contrabandeados vinham os programas contrabandeados também. O fato é que eu descobri que dava para fazer jornal pelo computador e, o que eu fazia mais na época, era possível fazer anúncios, trocar fontes, etc e tal. Só que eu achava, burrinho que sou, que se fazia, se imprimia e se perdia. Nunca tinha pensado que se poderia salvar e continuar depois.

Até que um dia salvei e fiquei feliz, mas quando vi estava salvando tudo na pasta do Windows. Aquelas coisas de gente que só se acha entendido depois que aprende. Depois que se aprende tudo é muito fácil. Um dia a luz clareou, alguém me explicou o que era um disco rígido, um HD, e como funcionava, e aí eu criei a minha primeira pasta. Dali em diante eu tinha o meu armário. E fiz como todo mundo. Enfiava tudo lá e só guardava. Não jogava nada fora. A vida não pode ser assim. Logo estava centenas de arquivos amontoados, sem divisão por tipo ou assunto, e um monte deles absolutamente desnecessários e só ocupando espaço do HD. As coisas precisam ser utilizadas ou dispensadas. Guardar para ver se um dia, quem sabe, pode ser que eu tenha um filho e um dia a namorada dele possa precisar é ser otimista demais.

Assim como devemos fazer com nosso computador e nosso armário, é sempre bom fazermos com nossas ideías e conceitos e a receita que eu conheço é das melhores. Começa com um “pano molhado”. É para tirar o pó do armário. Tira-se TUDO o que há no armário e coloca-se na cama e depois passa um pano molhado em tudo. Vai ficar limpinho e cheiroso, todas as gavetas vazias. Tudo na cama. Nada no armário. Daí começa o interrogatório que tem que ser respondido com franqueza porque é feio mentir para si próprio: “Para quê eu preciso disso?”.

 Não precisamos, gente. Não precisamos de mais camisas que as que nós usamos. Separe sem dó as que já faz tempo que não usa e passe pra frente, com todas as outras roupas que você tem mas não usa. Se você não usa calcinha e sutiã que têm buraquinho, jogue fora ou dê para alguém quando vir o primeiro buraquinho. Se não usa, o que está fazendo lá? De que adianta ter 15 calças jeans se todas as vezes que olharem para você apenas virão que você está de calça jeans? Exageraram tanto na variedade que ficaram todas iguais. Jeans se tem 2 para o dia a dia, daqueles bem simples e confortáveis, um mais enfeitado pra sair à noite e um jeans fino para ter se precisar. O resto não usa. Só amontoa, só se faz coleção. Não usa mais a camiseta do Snoopy, aquele cachorro horroroso, mas continua com as roupas guardadas. E as do Piu-Piu que até têm vergonha de mostrar pras amigas. Tire tudo isso do seu armário.

É só pensar que se precisa encontrar um lugar para cada coisa, e colocar cada coisa no seu lugar. E, o que é mais inteligente, enxergar que aquilo que não voltar para o armário e for colocado adiante, jamais te fará falta. Mais que isso você ganha um armário limpinho, com poucas coisas, mas todas úteis, fáceis de achar, dá gosto de ver. E ainda ajuda quem precisa e não pode ter. Coisa simples de fazer se tiver vontade e não for uma pessoa mesquinha e avarenta que quer tudo para si, mesmo sem qualquer utilidade, nem que seja só para o outro não ter. Daí pode parar de ler.

 Nossos cérebros estão precisando de faxinas dessa natureza. Nossa mentes estão entupidas de idéias, fés e crenças, experiências vividas, outras contadas, verdades absolutas, mentiras bem fundadas, fruto de tudo o que nos ensinaram, somadas às idéias que temos nós mesmos a partir do que nos foi ensinado. Nossas idéias são fruto do que sabemos. Se só sabemos o que nos ensinam e nunca vamos aprender nada por nós mesmos, fica claro que vai faltar um pouco de originalidade na nossa forma de pensar.

Não há necessidade de saber tudo e muito menos de ter respostas para tudo. É tão bom não saber as coisas e ir atrás de respostas. Faz a gente pensar. Por que eu fumo? Por que eu não gosto do Lula? Por que eu como mais do que preciso? Por que eu torço para o Palmeiras? Por que eu não quero ter filhos? Por que eu quero o homem que não me quer? Para quê serve essa vaidade que consome meu dinheiro? Para que eu preciso de mais sapatos? Por que gastar meu dinheiro nesses cosmésticos se eu sei que não vou usar? Para quê ter 4 pares de tênis? Quais dessas 400 bijouterias eu uso e quais não uso?

 Quem tem poucas coisas a casa é “clean”. Tem de tudo, mas não sobra nada. Tudo o que sobra e tem utilidade se passa pra frente para ajudar alguém. O que não tem utilidade vai para o lixo e fim. Papéis, guardanapos, lencinhos e florzinhas marcantes de nossas vidas tem que se limitar a caber numa caixa de sapatos, onde se encontra a história emocional das nossas vidas. No mais, passe pra frente. Tem panela que nunca usa? Venda pelo preço do alumínio ou dê para alguém que nem panela tem. Tem pratos sobrando? Mande embora. Nunca vai aparecer 20 pessoas para almoçarem na sua casa. Só o necessário. Só o básico, o útil. Abra mão de todas as futilidades e superfluidades.

Agora tire uma base. Se você fizer isso com seu armário do quarto, sua cozinha, seus badulaques, sua bolsa, e principalmente com suas idéias, não te dá uma sensação de amplitude? De poder ver melhor o que se faz e optar pelo mais conveniente? Não fica mais elegante e arrumadinho? Então... Era essa a mensagem.

Arrume os armários da sua vida. Tudo pra fora, uma limpeza, e só volta pra dentro se explicar o que vai fazer lá. Enrolou, engasgou, pensou, tá fora.

12.11.2008

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